O silêncio de uma lembrança
Sonhei que poderia ser rei, também tive os meus dias de plebeu. Busquei viver intensamente como se não existissem outros dias, retirar o frescor de cada manhã, assim, prossegui minha vida tentando ser eu.
Tiveram dias que fui príncipe, e dizem que já cheguei a ser o bobo da corte. Vivenciei o galã mocinho, mas me sentia atraido pelos grandes vilões.
A vida é como um grande circo e neste trapézio, me equilibrei dia após dia escapando de todos os obstáculos. Durante a infância, tentei ser muitas coisas diferentes, e hoje, numa idade um pouco mais avançada, sei que sou o reflexo de tudo o que eu almejei ser.
fui anjinho de quermesse, fui de Cristo à Pilatos, lavei minhas mãos.
Passei por inúmeros caminhos, busquei a diversidade, li alguns livros, uns deles soletrei, por estar aprendendo a ler, outros fui obrigado a ler, outros me chamaram atenção.
Questionei e fui questionado, ousei e fui julgado.
Transitei por mundos desconhecidos onde cada minuto me mostrou um apendizado. Por vezes, andei pela luz, mas tive meus dias de trevas. Uns dias, com a bandeira branca estendida e em outros, com a lança negra a desbravar o inatingível.
Fui Deus, ou melhor, Deuses. Mesmo que de forma pagã.
Já amei, fui amado, traído e traidor, fui tantas coisas que meu coração foi ovacionado e apedrejado.Transei de forma doce, de forma vulgar, gozei e fiz gozar de tantas formas e maneiras que minha reputação fora duvidosa e dadivosa, dependendo da ocasião.
Caminhei de aluno a professor, ensinei e fui ensinado, aprendi a ler nas entrelinhas, meu livro, livro cão.
Chorei e sorri em proporções tão altas que de tantas lágrimas derramadas, tiveram vezes que chorei em vão, choro seco, nó na garganta, mas o sorriso doce de menino brotava em meu rosto, logo, a tão negra noite se distanciasse do meu eu.
Andei, corri, caminhei, tropecei e cai, aprendi a me equilibar.
Ganhei notoriedade para distinguir o certo do errado, errei e acertei.
Feri e fui ferido, com atitudes, palavras, gestos e omissões, duelei no jogo, jogo da vida.
Criei um mundo particular de vivência, fiz amigos, somei inimigos, prossegui.
Fui ao altar, disse sim, jurei pela alegria e tristeza, saúde e doença, mas a carne é de mortal, não consegui.
Joguei no jogo de azar, tentei a sorte, fiz minha fé. o lema, era ganhar ou perder.
Parei na estrada, pedi carona, comi poeira pelo mundo de meu Deus, pulei cercados, abri e fechei as porteiras, porteiras do meu destino.
Desabafei e muito ouvi em mesas de bar, recanto de paraíso, a verdade nua e crua. Casos da vida.
Senti no rosto toda a levesa como brisas de meus longos e muitos anos, da pele de bebê, senti brotrar as primeiras rugas, meus cabelos todos brancos, sinônimo de vivência.
Tirei energias de alimentos e esperanças, hoje, consumo luz.....
Senti o anúncio das sequelas da vida, perdendo primeiro a visão, e hoje, aqui em meu recanto, jaz uma alma que viveu...



















